‘A universidade tem que garantir institucionalmente que as pessoas sejam importantes’, dizem candidatos eleitos

Depois que o Comitê Executivo homologou o resultado das urnas, os professores Marcelo Pereira de Andrade e Elisa Tuler concederam esta entrevista

Os professores Marcelo Pereira de Andrade, Elisa Tuler e Rosy Ribeiro não dormiram de terça para quarta, quando ocorria a apuração dos votos da pesquisa para opinião sobre o reitor da UFSJ. E permaneceram acordados depois que souberam que foram escolhidos pelos estudantes, técnicos e professores para representa-los à frente da reitoria da UFSJ. De manhã cedo, já estavam dando aula, encaminhando suas atividades de pesquisa e começando a percorrer os campi para agradecer a confiança dos eleitores.

No final da tarde, depois que o Comitê Executivo que organizou a pesquisa de opiniões sobre o reitor da UFSJ homologou o resultado das urnas, Marcelo e Elisa concederam esta entrevista ao Adufsj Online. A professora Rosy, lotada no CCO, já havia se deslocado para Divinópolis, onde cumpria suas obrigações acadêmicas.

Os candidatos eleitos falaram, principalmente, dos dois grandes desafios que têm pela frente. Primeiro, garantir que o Colégio Eleitoral respeite a vontade da comunidade acadêmica e ratifique os nomes deles para compor a lista tríplice que será encaminhada à presidência da República para escolha do novo reitor da UFSJ. Segundo, construir uma universidade mais transparente e humanizada, que respeite a vida, os direitos humanos e a pluralidade de vozes tão necessária à democracia.

Confira!

 

Adufsj Online – Qual a sensação de serem escolhidos pela comunidade acadêmica para representá-los a frente da reitoria da UFSJ? O resultado era esperado ou surpreendeu a chapa? Como vocês avaliam esta campanha exitosa?

Elisa – Nós tivemos um período de campanha curto, mas intenso. Intenso no sentido de muito pouco tempo para conversar com muita gente, conseguir passar nosso programa, participar dos debates... nós recebemos muito apoio, muitas pessoas demonstraram simpatia pelo nosso programa, mas sempre ficamos com os pés no chão, porque sabíamos que a batalha não era algo fácil, até porque as outras duas chapas têm o seu valor.

Marcelo – Nós fizemos um levantamento, durante o trabalho todo, de quem declarava voto, de quem estava conosco. É claro que sabíamos que isso não necessariamente se reverteria nas urnas, mas o pessoal nos recebeu com muito carinho. Os debates foram importantes, as redes sociais foram importantes... e o jogo limpo também. E termos feito este jogo limpo foi muito legal, porque somos professores, vamos retornar para a sala de aula. E se tivéssemos feito um jogo rasteiro, que tipo de exemplo nós estaríamos dando para os estudantes?
Ao longo do processo, a gente foi vendo que foi crescendo o apoio, que as coisas ficaram mais dinâmicas, as conversas, as redes sociais... foi muito interessante. Claro que a gente sempre tem que ser otimista em momentos como este. Mas dizer que a gente tinha certeza? Não.

Elisa – Até o último voto eu fiquei sentada na mesa acompanhando a contagem. A gente aguardou até o último voto, porque a consideração pela comunidade é importante. E o resultado trouxe isso para a gente. Trouxe esta legitimidade que agora nos deixa com o coração mais tranquilo.

 

Adufsj Online – Como é uma vitória destas em um momento tão complicado para as universidades, com este quadro de 50% de intervenções, de desrespeito do governo à decisão democrática da metade das comunidades universitárias do país que elegeram seus reitores neste ano?

Marcelo – Em terra arrasada, em área deserta, também nascem rosas, nascem flores. Apesar de tudo que estamos vivendo, quando a gente olha para uma disputa como esta, é preciso comemorar. Primeiro, porque a gente conseguiu ter um formato, na consulta informal, de uma lista tríplice. E uma lista tríplice que, no nosso caso, que é o da Chapa 1, está preocupada com o programa. Então, quando a gente sabe que isso deu certo, que esta é uma construção democrática, dentro da legalidade, preservando o direito da comunidade de se expressar através do voto, nós ficamos felizes.

É claro que agora vem a outra etapa, que é o Colégio Eleitoral. E no Colégio Eleitoral, há a expectativa dos conselheiros respeitarem a vontade do voto da comunidade acadêmica que os escolheu. Na verdade, todos os nossos conselheiros são eleitos pelos seus pares. Então, a nossa perspectiva é a de que o Colégio Eleitoral mantenha a decisão. E como teremos uma lista tríplice, pode ser que tenhamos um reitor ou uma reitora. Mas a nossa grande aposta é no nosso programa, que aponta para que universidade nós queremos ter.

 

Adufsj Online – E que universidade é esta? O que será prioridade?

Elisa – A gente tem como um ponto de partida a questão da transparência. A abertura das informações, do orçamento, mas não só isso. Tem várias perguntas sendo feitas que precisaremos fazer um mapeamento geral para poder dar as respostas. Há demandas dos técnicos, dos docentes, de vagas. A gente precisa deste mapeamento até mesmo para dar abertura aos nossos atos.

Marcelo – Planejamento participativo. Orçamento participativo. Uma universidade humanizada. Uma universidade integrada com a comunidade local, de forma que a comunidade local se veja na universidade e a universidade se veja na comunidade local. E isso em todos os campi que a gente tem. Esta é uma universidade do futuro. Uma universidade que realmente tenha interação com a sociedade, para que a sociedade reconheça o papel social da universidade.

"A universidade só se faz no debate; e com vozes diferentes"

 

Adufsj Online – Hoje, inclusive, no primeiro dia de agenda como candidatos eleitos, vocês participaram de um evento do Programa Universidade para Terceira Idade. Isso foi um indicativo intencional deste caminho?

Marcelo – Ah, sim. Isso está na nossa história de vida. A Elisa foi do NEAD, sempre foi muito atuante, sempre esteve com as pessoas. Eu fui pró-reitor de Ensino, fui vice-reitor; mesmo quando fui coordenador de curso, sempre estive junto das pessoas. E começando por dentro, mudando o tratamento que nós temos uns com os outros, o tratamento com os terceirizados, que são colaboradores importantes. E os nossos alunos percebem isso, porque nossos alunos já fazem esse tipo de tratamento com eles. Institucionalmente, temos que garantir que as pessoas sejam importantes. A vida é importante.

 

Adufsj Online - Como vocês avaliam a importância da UFSJ para a região, principalmente neste momento de ataques aos direitos humanos, do combate institucionalizado pelo Estado a algumas políticas de ação afirmativa já cristalizadas, como as cotas e a assistência estudantil, e das ameaças de corte de verbas para as universidades públicas?
 

Elisa - Temos um desafio já colocado durante a campanha que é a defesa da universidade pública, mas de uma forma coletiva.  A gente tem falado que nós temos talentos suficientes aqui dentro da universidade para que possamos mostrar nossa importância para a sociedade. E isso se dá muito na forma de acolhida: de trazer a comunidade para cá para que as pessoas tenham o sentimento de pertencimento e de orgulho de ser UFSJ. Acho que começa por aí este papel que a gente vai ter que desenvolver. Fora outras etapas que a gente tem, como a da constância por recursos e outras buscas.

Marcelo – E vamos garantir o debate dentro da universidade. Porque a universidade só se faz no debate. E com vozes diferentes. Quando dizem que a universidade só tem uma voz, não é verdade. Exemplo disso é que tivemos três chapas concorrendo. A universidade se faz via debates, problematizando seus temas.

É claro que a gente tem que assegurar os direitos humanos. O nosso programa de trabalho fala em combate a qualquer forma de preconceito. Em tempos em que mulheres são mortas pela questão de gênero, a universidade tem que garantir essa defesa dos direitos humanos. A política de ação afirmativa tem que ser perene, a de assistência estudantil também, porque é a parte positiva da política de ação afirmativa. São bandeiras que nós temos que defender.

Tem uma questão também que é importante. Às vezes, as pessoas atacam a história da instituição, daqueles que colaboraram com a instituição. Aqueles que colaboraram com a instituição, a gente não pode julgar por bandeiras ideológicas. Temos que olhar por aquilo que eles fizeram pela instituição e aprender com essa história para poder atuar no presente, construindo a universidade do futuro. Passado, presente e futuro têm que interagir.

Adufsj Online – Algo que vocês queiram acrescentar?
 

Elisa – Só agradecer mesmo a participação da comunidade. Dos três seguimentos, inclusive, do pessoal terceirizado, do pessoal da comunidade que, muitas vezes, nos apoiaram na torcida, no pensamento positivo. Na verdade, agradecer a participação de todo mundo, independente de quem votou, pelo exercício e pela confiança na Chapa 1.

Marcelo – Eu também gostaria de agradecer aos sindicatos, a ADUFSJ – Seção Sindical, o Sinds-UFSJ, o Comitê Executivo. E o DCE, que desempenhou um papel brilhante. Às vezes, as pessoas criticam nossos estudantes e eles mostram a maturidade que eles têm. Então, é preciso agradecer ao coletivo que possibilitou que a gente tivesse este exercício bonito, democrático.

É claro que a gente ainda vai passar pela outra etapa, que é o Colégio Eleitoral, mas é importante que as pessoas tenham certeza de que hoje, 27 de novembro, a eleição foi findada e quem vence administra, faz a gestão para todos os membros da UFSJ, sem olhar em quem votou, sem olhar gênero, raça, idade, nada disso. É uma gestão para todos. É uma gestão coletiva.

 

Adufsj Online – Então não vai ter ninguém sendo transferido porque votou em outra chapa? Professores e técnicos podem ficar tranquilos?
 

Marcelo – Não. E é um compromisso nosso que, na próxima eleição, as pessoas vão poder manifestar seus votos, porque não partirá da reitoria nenhum tipo de ação para inibir a livre manifestação e o direito de votar em quem a pessoa quiser. Isso não vai acontecer. A universidade vai ser livre. E é claro que vamos fazer um processo eleitoral muito antes (risos). Seis meses antes a gente começa o processo. Seja quem for candidato, a gente vai preservar o direito democrático de escolha do próximo reitor ou reitora.

 

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